MORTO DE SEDE...
A história que o povo recria. A deliciosa mistura entre o sagrado e o profano que aproxima o divino do humano. Gosto de investigar este tipo de poesia que surge das ruas, das festas das ruas. Vi uma vez um conjunto de doutores de Coimbra cantar um fado: SAMARITANA. Nunca esqueci a letra. Agora, com a internet, achei-a por completo. SAMARITANA (Fado de Coimbra) (Alvaro Leal) Dos amores do Redentor Não reza a história sagrada Mas diz uma lenda encantada Que o Bom Jesus sofreu de amor Sofreu consigo e calou Sua paixão divinal Assim como qualquer mortal Um dia, de amor palpitou Samaritana... da aldeia de Sicar Alguém espreitando te viu Jesus beijar De tarde quando foste encontrá-lo só Morto de sede, junto á fonte de Jacó E tu risonha acolheste O beijo que te encantou Serena empalideceste E Jesus Cristo corou Corou, ao ver quanta luz Irradiava da sua fronte Quando disseste ao bom Jesus: Que bem eu fiz Senhor, em vir á fonte 
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 14h07
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
NÃO FICA MUITO LONGE

Não fica muito longe. Basta caminhar pela noite, dobrar a esquina. A noite ajuda. Pessoas voltam para casa, levam carne, pão, cansaço. Na frente de uma pequena barbearia, o barbeiro cochila deitado na velha cadeira reclinada. A luz que sai pela porta ilumina as pedras do calçamento. Não fica muito longe. A poucas lembranças de algum lugar, de algum instante que passou. Saberemos quando chegar. O lugar é acolhedor. A mesa nos cabe. O copo é cheio e, a musica, um trem de portas abertas.
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 08h01
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
O BRASIL EMPRESTA DINHEIRO AO FMI
Assim é, se lhe parece. A realidade é relativa ? O mundo que vejo e sinto precisa ser traduzido ? Tradutor, traidor. Melhor seria “lavar os olhos com o verniz das estrelas”, no dizer de Alberto da Cunha Melo. Moro no melhor dos mundos possíveis. Tudo é relativo e a retórica me basta. Qualquer retórica. Pra que pensar ?
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 09h20
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
FEITIÇO
A clarabóia dos seus olhos não esconde um sonho triste do outro lado da vidraça é como um tigre envolvido pela sombra de um caçador que nunca encontra sua caça. O circo inteiro já partiu de manhãzinha sem perceber toda a tristeza do felino a fera presa no jardim do seu vestido era o meu sonho de amor quando menino. Alguém de negro joga cartas sobre a mesa a um marinheiro de gravata azul marinho o rei de copas sai da carta e o tigre mata e o marinheiro se transforma em passarinho. Por muito tempo esse feitiço foi cumprido e vem de noite arranhar a sua porta como quem chora a perfeição desse destino meio felino, marinheiro, gaivota.
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 10h21
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
UN GATTO NEL BLU
Um pequeno gato mia de noite. Que faço ? é escura a noite e ele mia triste - Como posso dormir ? Flagelados da seca caminham pelas estradas no sertão. Mas um gato mia. Crianças abandonadas dormem pelas calçadas da cidade. Mas o miado é triste. Talvez o gato tenha fome. Talvez o gato se perdeu da mãe. Que faço na noite escura de minha infância ? O avião explodiu no mar. O tubo de soro pinga nas veias do moribundo. Namorados se separam para sempre e nunca mais se encontram. Jornais imprimem notícias do mundo. Lojas renovam o estoque de artigos de moda. Abrem-se as portas ao cotidiano: a feira, o supermercado, a padaria, a descaraga na privada, o pranto molhando o travesseiro. Tento tapar os ouvidos com as mãos. O gato continua miando no meio da noite. Talvez ele goste de leite. Talvez ele queira um biscoito - Por que chora o gato ? Cresci - que fazer ? Só na aparência. Só no espelho. Toto Sávio, eu também não sei por que a janela parece vazia e maior.

Escrito por Luis Manoel Siqueira às 11h10
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
PEDRAS PRECIOSAS
 Entrei com a minha mãe dentro da casa arruinada. A lama cobria tudo. Ela chorava. Enchente do Recife de 1975. Perdemos geladeira, roupas, fogão, móveis, livros e brinquedos. Tudo coberto pela lama e água do Rio Capibaribe que invadiu nossa casa e marcou na parede uma altura de um metro e quinze centímetros. Entre as coisas difíceis que eu aprendi na vida, classificar um lote de esmeraldas foi uma delas. Olhar a pedra bruta e escolher a melhor forma. aperfeiçoá-la na lapidação, escolher o lado da mesa. Fazer isso com o lote inteiro bruto. Depois, concluída a lapidação, classificá-las por cor, brilho e inclusões. Depois o valor de venda em grosso e no atacado. Uma coisa sempre me incomodou: por que elas valem tanto? Para que mesmo serve uma pedra preciosa? Retorno a minha casa flagelada. Sigo a minha mãe até o seu quarto. Ela abre uma gaveta. Retira um álbum de fotografias totalmente destruído e apagado – seu maior tesouro.
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 09h11
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
ROTÍFERO E ANABAENA
Eu não tenho me importado muito com noticias da base aliada. Nem com a CPI da Petrobrás. A crise no Senado não me interessa. Nem o uso abusivo das passagens pelos deputados. Ultimamente eu tenho estudado os Rotíferos e as Anabaenas. Rotíferos não é raça de cachorro. Anabaena até parece nome de sereia. Era uma vez uma sereia que se chamava Anabaena – que começo de estória!  ANABAENAS Na Paraíba, rotíferos e outros animais do plâncton de água doce estão intoxicados com microcistina. Microcistina é uma substancia tóxica produzida por algas azuis. A Anabaena é uma alga azul, mas não produz microcistina. Porém vive no meio delas. Elas crescem desordenadamente em meio rico de nitrogênio e fósforo – elementos que existem em esgoto doméstico. Os rios estão virando esgotos.  ROTÍFERO Cientistas estão encontrando microcistina em diversos reservatórios de água da Paraíba. A microcistina matou 70 pessoas numa clinica de hemodiálise em Caruaru. Ela não é retida em filtros. Ataca o cérebro e fígado. O plâncton de água doce fica impregnado de microcistina. Os micro-insetos o comem. Os peixes o comem. O homem come o peixe e bebe a água. Uma bomba chiando... CPI da Petrobrás ? - Era uma vez uma sereia chamada Anabaena.
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 11h16
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
COMPRANDO TURMALINAS
Eu fui a Araçuaí comprar turmalinas. No caminho passei por Pedra Azul. Nas porteiras das pequenas fazendas, via baldes de leite à espera do caminhão da usina. Perguntei se ninguém os roubava. Não, responderam-me. Achei curioso. A região mais pobre de Minas Gerais, na sua porção Norte, já considerada como parte do Nordeste. Na cidade havia um doente mental. Todo mundo gostava dele. Tomava refrigerante, davam-lhe dinheiro, lanches. Era por todos protegido. Muito tempo depois, no Recife, escutando a Rádio Universitária, ouvi um disco gravado por Frei Chico, um religioso holandês que viveu no Vale do Jequitinhonha, onde organizou um coral de crianças para cantar as canções tradicionais da região. Um disco muito famoso. Uma preciosidade.  Anos depois, morando nas margens do São Francisco, na Bahia, apresentaram-me a música de Paulinho Pedra Azul, um filho de Pedra Azul. Fiquei encantado com a força e delicadeza de suas canções.  Moro numa cidade chamada Campina Grande que se ufana de ter “O melhor São João do Mundo”. As bandas de forró eletrônico que tocam no São João são terríveis. As rádios da cidade possuem programas musicais de baixíssima qualidade. Eu sinto saudades do tempo em que comprava turmalinas.
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 09h40
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
EMBARCAI-ME !

- “Depende, tá ligado ? depende do contexto, tipo assim, do seu ponto de vista. Pode ser ou pode não ser. Tá ligado ? O que é certo pra você, pode não ser o certo para mim.” Eu sou um eremita. Moro numa caverna. Não sei mais falar. Procuro alguém para conversar, mas falam muito alto. Falam alto demais. Fiquei velho. Fiquei muito chato, misantropo. Eu tenho uma pedra angular. Tenho premissas. Tenho princípios. Valores: meus pontos cardeais – não sei viver sem eles. Ó Argonautas, me deixem embarcar! Eu sei onde se esconde um velocino de ouro. Contou-me um vaqueiro lá em Santa Cruz de Malta. Há quem o veja a correr pela caatinga molhada de orvalho. Minha língua é outra, é antiga, seminal. Amo as palavras sementes. Abaixo de Deus, tenho fé nas palavras. Todas substantivas. Todas fortes, sem pinturas adjetivas ou superlativas “tipo assim”: superlegal, superinteressante, superbem... Eu amo as palavras angulares como as pedras do alicerce. As rejeitadas, como Cristo. Com elas faço espada. Por causa delas monto rocinantes, faço canteiros, ergo castelos e luto só e feliz. Ah,o império do relativismo e da mediocridade...
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 12h38
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
UM MENINO FAZ 70 ANOS

O filme “Pinóquio” de Disney comemora 70 anos. É de longe o meu desenho animado favorito, desde que me entendo de gente. Adoro bons desenhos. O velho clássico infantil nunca foi tão atual. Fala de transformação interna de um boneco que deseja ser gente de verdade. Para isso, precisa deixar de mentir e precisa praticar boas ações. E precisa ser bom. É preciso ser bom, para nos tornarmos verdadeiros. Pinóquio é o mais famoso personagem infantil do mundo. Gosto muito dele, mas para falar a verdade, sou fã do grilo falante - o símbolo da consciência. Que coisa séria e importante é ter consciência!
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 17h08
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
QUANDO EU VOLTAR PARA CASA
Nada na vitrine te conforta Nos altares das igrejas, profecias A certeza de um lote lá no céu A saúde que em ti o caldo esfria O aumento de salário, loteria O almoço de Domingo com família Carro novo estacionado frente à porta A mulher tão elegante e bem vestida O encontro social conveniente A conversa bem polida e conseqüente Nada disso te conforta: Estás perdido - Estás perdido novamente. ( LUIS MANOEL SIQUEIRA - QUANDO EU VOLTAR PARA CASA - CANTO III )
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 14h40
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
UMA SÓ CANÇÃO
Um fio mágico conduz a arte pelo tempo, permeando as vidas das pessoas. Um dia ele desaparece. Passa um tempo submerso e emerge depois, em outro continente, em outro tempo. 
Dylan Thomas, poeta irlandês, morreu jovem. Deixou um trabalho tão forte e belo que encantou Bob Dylan – que tomou seu nome emprestado.
Inspirou ainda Woody Guthrie, compositor americano nos anos da depressão de 30, que ficou amigo de Peter Seeger, com quem cantou junto por muito tempo. 
Peter Seeger, que foi considerado anti-americano durante o macartismo, foi quem cantou nos escombros das torres gêmeas e fez chorar uma nação inteira. 
Seeger inspirou um mundo artistas. Bob Dylan inspirou o nosso Zé Ramalho. Todos cantam a sua terra. Distantes no tempo e no espaço. Mas a canção é uma só. 
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 15h22
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
NOTICIÁRIO DE 1998
Um delegado do sertão do Norte baiano prendeu um pai acusado de ter relações sexuais com a própria filha ainda adolescente. E mais, já tinha um filho de nove meses de idade com ela. Perguntado pela televisão o que ele achava de ser pai e avô de uma mesma criança, o réu deu com os ombros: “Não sei. Nunca pensei nisso. Minha carne é fraca. Sei que estou errado.” A prática de incesto no interior do nordeste não é uma cena tão difícil de se ver. Nem a prática de crimes, assassinatos sob encomenda, práticas de bruxaria, formação de quadrilhas, tráfico de drogas, autoflagelações por motivos religiosos, linchamentos, fuzilamentos, torturas, fetichismos, assaltos, queimadas indiscriminadas da vegetação e matança de animais selvagens considerados em extinção. O réu confessou ainda, ao repórter da televisão baiana, que se por acaso for solto irá continuar mantendo relações sexuais com a filha, pois a sua carne é fraca. Disse também que possui quarenta anos e é analfabeto.
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 09h40
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
MULHERES

Tudo o que sei de mais importante sobre as mulheres, aprendi com minhas irmãs. Desde pequeno, percebia a diferença de mundos, de gostos, de prioridades. Eram mais frágeis do que eu – apenas na força física, mas sabiam como conseguir o que desejavam de outras maneiras. Se brigávamos e elas choravam, eu ficava atônito, sem saber o que fazer. Claro que eu não via a menor graça em fazer comidinhas, trocar roupa de bonecas. Mas entendi todo aquele ensaio quando foram se tornando mulheres. E vaidosas e femininas. E quando casaram e tiveram filhos. Aprendi, por exemplo, que por mais belas que sejam, ficam chatas quando menstruam e acordam sempre com o cabelo em desalinho e o rosto amarrotado. Que levam horas para se arrumar e que adoram ser chamadas de bonitas. A mídia soube fazer da mulher um belíssimo produto de consumo, ou ferramenta para promoção de vendas: coxas, púbis, seios, nádegas, expressões sensuais... às vezes penso que isso contribuiu para a infelicidade de muita gente – essa fantasia, essa deturpação da realidade. Eu mesmo levei algum tempo para ver uma mulher exatamente como eu via as minhas irmãs: como meninas.
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 06h55
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
BOM DIA, PODEM SENTAR !
Colégio calvinista sob a direção de americanos. Nós os chamávamos de “Miss” ou “Senhor Professor”. Dos 5 aos 17 de idade. Uma vez, no inicio da adolescência, reclamei de um professor de matemática que exigia que, ao entrar na sala, nós nos levantássemos, até que ele dissesse: -Bom dia, podem sentar. O caso foi para a direção do colégio, que não deu a menor atenção a minha queixa. Entrei na universidade e me descobri um extraterrestre. Tratava os professores de “senhor” e por isso fui discriminado por muitos. Ousei reclamar de uma greve que fizeram em apóio a um aluno havia ameaçado um professor de morte, armado com um revólver, e ganhei um ano sem ninguém falar comigo. Depois da formatura, vinte anos de trabalhos na iniciativa privada, tirando da terra o meu sustento. Pequena mineração e agricultura. Vida dura. Voltei à academia para fazer uma pós-graduação e vi mestres e alunos fumando maconha em sala de aula. E vi mestres e alunas transando em gabinetes. Testemunhei alunos transando em bibliotecas. E mestres usando alunos pobres para trabalharem até tarde da noite em projetos escusos. E muita indiferença para isso tudo. Por que nos assombramos com o Congresso e com os políticos que temos ? Por que nenhuma de nossas universidades figura entre as 100 melhores do mundo ? - Bom dia, podem sentar !
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 15h42
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
|

|
|

|