ASSUM PRETO


SINHOZINHO

               

 

De todas as estórias que vivi com Sinhozinho, em garimpos e viagens pelo país, recordo de uma insólita visita que fizemos a uns garimpeiros presos por roubo de esmeraldas em Campo Formoso. Fui à cadeia levado por ele, onde conheci os ladrões que ele fazia questão de visitar todos os dias. Soube depois que, numa dessas visitas, o carcereiro esqueceu Sinhozinho lá dentro, e saiu para resolver algum assunto particular. O povo, na cidade, ao saber que ele ficara esquecido dentro da cela, fez um romaria burlesca para visitá-lo, lamentando o fato de como fora capaz de fazer parte de um assalto daqueles.

 

Recordo ainda ele dançando no meio da praça, ao som de um alto falante, enquanto as pessoas gritavam: “Olha o urso, olha o urso !” E das pedras que tirava da terra, lapidava e comercializava: esmeraldas, ametistas, topázios. Centenas de milhares de dólares desfilando pelos seus dedos, e ele sorrindo, com um estranho ar de desprezo por aquilo tudo. De uma outra vez, foi seqüestrado por bandidos em Copacabana, levado para uma favela, e lá lhe pediram as pedras ou perderia a vida. Sinhozinho acalmou os bandidos, dividiu com eles as pedras, e voltou com outras tantas no bolso. E vivo.

 

Lembro dessas estórias e de muitas outras. Uma delas, numa fazenda dele no alto sertão baiano, onde eu e meu pai fomos pesquisar uns calcários, e de noite, fui dormir ao relento, num banco de madeira. Acordei de madrugada com um cavalo de sentinela ao meu lado, que me olhava demoradamente, como se velasse meu sono.

 

Devo a ele tanto, e nunca lhe disse isso. Disse apenas o quanto o queria bem. Mas faltou dizer mais, muito mais.

 

Passei doze anos escrevendo Neruega, e hoje me sinto mais ou menos como os ladrões de esmeraldas na cadeia de Campo Formoso, só que sem direito a tão ilustre visita. O meu livro é impregnado de pessoas boas, generosas e humildes como ele.

 

Quando meu pai me contou do ônibus que vinha de Fortaleza e caiu dentro de um açude, e que dentre os mortos estava Sinhozinho, um filme de lembranças não pára de rodar na memória encarcerada. E ao me perguntar: “Meu filho, onde é que vamos achar outro amigo como ele?”. Eu contornei dizendo que cada amigo é único, cada amigo é insubstituível, precioso. Mas eu bem sei que não respondi completamente a sua pergunta.



                                       

 

                                     (Sinhozinho e eu – Sertão do Alto Rio Salitre/BA - 1995)



Escrito por Luis Manoel Siqueira às 17h45
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