ASSUM PRETO


O REFRÃO DO BAR SAVOY

 

O meu primeiro copo de cerveja foi no Bar Savoy, levado pelo meu avô, servido por Careca, o garçom que servia o poeta Carlos Pena Filho. Meu avô me mostrou a placa de bronze com o trecho do famoso poema na parede.

 

Mais de trinta anos depois voltei ao Bar Savoy para assistir ao impeachment de Fernando Collor. O bar, lotado de gente. A Avenida Guararapes cheia de estudantes de caras pintadas.

 

“Na Avenida Guararapes o Recife vai marchando

O Bairro de Santo Antonio tanto se foi transformando

Que agora as cinco da tarde mais se assemelha a um festim

Nas mesas do Bar Savoy, o refrão tem sido assim:”

 

Eu levava uma namorada a tira-colo. Uma morena que sorria e segurava a minha mão. O clima na avenida era de festa. De expectativa.  De alegria.

 

“Ah, se a gente pudesse, fazer o que tem vontade

Espiar o banho de uma

A outra amar pela metade

E daquela que é mais bela,

Quebrar a rija vaidade”

 

Cada voto dos deputados foi acompanhado com aplausos ou com vaia. E quando enfim o último voto pela cassação foi dado, o bar inteiro subiu em cima das cadeiras e cantou o hino nacional. Do lado de fora, as pessoas se beijavam, gritavam e agitavam bandeiras.

 

“Mas como a gente não pode, fazer o que tem vontade

O jeito é mudar de vida, num diabólico festim

Por isso no Bar Savoy o refrão é sempre assim:”

 

O meu avô morreu. O namoro acabou. O Bar Savoy não mais existe. O “companheiro” Fernando Collor hoje em dia faz parte da base aliada do governo. Os Caras – Pintadas lavaram a cara. E as mãos...

 

“São trinta copos de chope, são trinta homens sentados,

Trezentos desejos presos, trinta mil sonhos frustrados!”

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Luis Manoel Siqueira às 19h30
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