PEDIDO DE NATAL
 O meu primeiro professor de literatura foi o José Mauro de Vasconcelos. Devorei os seus livros quando era menino. Aprendi com ele. Descobri, ao longo da vida, que tivemos muita coisa em comum. Gostamos do mato, dos sertões, de nadar, de escrever. Morei em Natal, onde ele também morou. O MEU PÉ DE LARANJA LIMA é um livro que fascinou o Brasil quando foi escrito. É um poema, sim. Virou novela de TV e filme de sucesso. Não é o meu livro favorito dele, mas reconheço o seu encanto. Há um trecho nele que nunca esqueci. Um dia, Zezé leva o irmãozinho menor para um lugar onde um Papai Noel iria distribuir brinquedos para as crianças. Os dois, meninos pobres, filhos de um pai cruel, correm até o local, mas chegam atrasados. Sentam na calçada e Luisinho,o menor, começa a chorar. Então Zezé o consola mais ou menos assim: - Não chore Luisinho. No ano que vem a gente chega mais cedo. Olhe, não chore, veja só, você tem um nome bonito: Luis é nome de rei ! *** A Polônia possui um herói chamado Janusz Korczak. Médico pediatra, e escritor. Ele tinha um orfanato onde instituiu um conselho de crianças, e qualquer coisa que acontecesse de errado, esse conselho se reunia e decidia o que fazer. Certa vez o conselho de crianças se reuniu para julgar um ato seu, e o Dr. Janusz compareceu ao tribunal infantil. Dr. Janusz é também considerado herói porque acompanhou 200 crianças judias, por vontade própria, à câmara de gás, num campo de concentração nazista em Treblinka. Li um livro seu: “QUANDO EU VOLTAR A SER CRIANÇA”. *** - Dá-me esta sorte, Pai, quando eu voltar para Casa! Um tribunal de meninos para julgar meus passos e gestos perdidos pela vida. Um consolo breve, de algum deles, antes da sentença. Não pelo o meu nome de rei. Não pelo brinquedo sonhado. Mas pelo tanto que deixei de amar. 
Memorial a Janusz Korczak
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 17h44
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AQUELE SEU VESTIDINHO FLORIDO
 Enquanto os Beatles roubavam a atenção do mundo, um conjunto de jovens compositores americanos passava esquecido. Eles foram geniais. Mas a História foi cruel com eles. Muito injusta. THE BEACH BOYS compuseram canções belíssimas. Eu resolvi fazer um baile na garagem de minha casa. Quero lhe convidar. Vou servir cachorro quente e limonada. E Rum com Coca Cola. E música. Música que dá vontade de dançar. Quer ouvir uma amostra? http://www.youtube.com/watch?v=igTk5_EZ82A Por favor, eu lhe peço, venha com aquele seu vestidinho florido. Mas se o vestidinho florido não mais existir, e você for casada e tiver filhos... - Don't Worry, Baby !
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 23h17
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Lá em casa, meu pai colocava a gente para dormir no tapete da sala e, na radiola Hi-Fi, tocava os LPs. Dormíamos ouvindo, desde Nilo Amaro E Seus Cantores de Ébano, até um coral de cosacos rusos, ou Augusto Calheiros, Luiz Gonzaga. Eu gostava de colecionar figurinhas, selos, depois desisti. A infância passou. Faz tempo que virei colecionador de canções. Adoro canções e músicas de todos os tempos. Desde que eu as ame. Desde que elas me lembrem alguma coisa que eu vivi. Sou radicalmente eclético: gosto de Carlos Galhardo e de Billy Joel.Edith Piaf. Charles Trenet. De Procol Harum e de Paul Williams. De Altemar Dutra, Renato Teixeira e de Klaatu. Quem conhece Klaatu ? Quem conhece Paulinho Pedra Azul ?
A música boa não tem nacionalidade. Nem idade. Boa noite !
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 19h11
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TEXTO DE CONTRACAPA DE "A URGÊNCIA DE ANIMAR O CORAÇÃO"
Que ninguém subestime a simplicidade dos versos e da prosa reunida neste livro. A simplicidade e a fluência são canções em segundo grau de uma privilegiada sensibilidade. Em primeiro plano, mas como um segredo a ser desvelado, está o poder metafórico de um lirismo radical em que a epifania do afeto (tantas vezes da infância) vem do cotidiano, do desamparo, do descompasso entre o poeta e o mundo. Se — como dizia Vinicius de Moraes — “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”, é preciso, para amar um poeta como Luís Manoel, enveredarmos por essa vida secreta das coisas e dos seres sedentos de absoluto, sempre flagrados nos desencontros e nos hiatos da realidade, mas com a esperança de que “Talvez este mundo consiga / a tradução pelas coisas / no seu formato completo / e, um dia, termine a procura / enchendo o vazio dos homens”. Paulo Gustavo, escritor e Mestre em Teoria da Literatura
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 22h15
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O BEM SÚBITO

Ainda muito menino, com 17 anos, eu fui envolvido pelo mundo intelectual do Recife, no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Era um tempo de grande agitação cultural e política. Conheci grandes poetas,jornalistas e escritores. Um deles, talvez o último, foi Geraldino Brasil. Alberto da Cunha Melo foi quem me apresentou. Ele era um senhor de idade, muito educado. E me falou sobre o seu livro: O BEM SÚBITO. Ele me disse assim: - Sabe, Luis, na vida, a gente vive cheio de males súbitos: derrames, enfartos, acidentes... Mas eu descobri que a vida não é só isso. Acontecem também os bens súbitos! Os encontros inesperados, as surpresas da vida... Geraldino Brasil - que bela figura humana ! Há pouco mais de dois anos eu tirei uma jovem mulher para dançar numa festa.
Hoje sou casado com ela. - O bem súbito, Geraldino ! O QUE NÃO SE CALA ... Rir é preciso, uma risada. Mas Deus não gostará do homem sempre de gargalhadas gordas que não se cala mesmo diante do palhaço de coração ferido. ... Geraldino Brasil
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 16h58
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SE EU TIVESSE UM MARTELO, UM SINO E UMA CANÇÃO

Se eu tivesse um martelo, um sino e uma canção eu os usaria para construir um novo tempo no meu país. Seria um martelo de justiça, um sino de liberdade e uma canção de sonho e de amor. Passei a vida cantando esta canção gravada num LP que tocava na radiola do meu pai. Só fui vê-la sendo cantada quando surgiu a internet e o youtube permitiu:”IF I had a Hammer” com Peter, Paul & Mary. Um hino dos nos 60 que continua atual, sobretudo para o Brasil de hoje. Na semana passada eu soube pela imprensa que Mary Travers havia morrido. A canção,o martelo e o sino ficaram. Do amor a gente cuida. 
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 18h28
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NUNCA, NA HISTÓRIA DESTE PAÍS...

- Acorda, menino, senão o “Pré-Sal” te pega !
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 17h39
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KISS ME LIKE A STRANGER

Andei procurando notícias do meu comediante favorito, Gene Wilder, que há muito tempo não filma. Adoro a participação dele no filme “O PEQUENO PRINCIPE” como o papel da raposa. Eu soube que ele deixou a vida artística, profundamente abatido depois da morte de sua esposa, Gilda Radner. Ela teve um câncer terrível, e por causa de uma estranha e brusca mudança de comportamento na fase final, detestava Gene Wilder, que era louco por ela. Ela beijava e tratava carinhosamente os estranhos no hospital, e odiava vê-lo. Que coisa maluca é o ser humano. Quem pode compreender? Gene Wilder escreveu recentemente a sua biografia e contou no livro o seu drama. O Título da obra: “KISS ME LIKE A STRANGER” É o mais triste título de livro que eu conheço.
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 19h29
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ALTERNATIVA

Bem velhinho, o escritor Leon Tolstoi fugiu de casa. Ninguém soube razão.
Eu já fugi de casa quando menino, e vi sobrinhos fazerem o mesmo recentemente.
Hoje eu li no jornal que o cantor Belchior está desaparecido de casa há quase dois anos.
Delirei!
Uma das melhores coisas que existem na vida é fugir de casa.
Fugir da mediocridade, e do Brasil de hoje, também.
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 15h14
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CANÇÃO PARA UMA FOTOGRAFIA
Te vejo na foto dos anos sessenta fazendo alvoroço no meu violão me diz quantos sonhos ficaram perdidos e quantos morreram na nova estação ? Talvez algum dia ouvindo outro rock o mundo se toque e volte a sonhar. Te espero, Maria, dos anos sessenta que no meu retrato sorri sem parar. 
(Canção para uma fotografia - "A URGÊNCIA DE ANIMAR O CORAÇÃO" - Luis Manoel Siqueira)
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 09h14
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NO DIA SEGUINTE
 Já vi um homem morrer em cima de uma cama. Os estertores da morte se assemelham a um orgasmo. É pouca a diferença. Curioso. É como se tudo que sai do nosso corpo nos provocasse prazer: o sêmen, a vida. Deve ser bom morrer, assim como ter um orgasmo. E depois dormir. Vinícius de Morais se referia ao orgasmo como “a pequena morte de mim”. Que coisa bonita ! Que a morte então me traga um sono justo. E que ao menos me revele, no dia seguinte, o rosto de um amor.
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 06h35
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VERÃO PERDIDO

Praia de Maria Farinha, 1970. - Você se lembra ? Tinhamos dez anos de idade. Você era linda e eu, apaixonado por você (mas nunca lhe disse). Catávamos conchas na areia daquele verão - lembra ? a sua voz era música para os meus ouvidos. Um amor vivido aos dez anos de idade, a gente não esquece fácil. Mas ele passa rápido como vôo de maçarico. Ele passa, como o sucesso da música francesa no rádio. Ele passa, como a vida do guerrilheiro preso pela ditadura, menino de vinte anos, torturado e morto naquele verão, naquela mesma praia. Você se lembra ? Muitos anos depois, eu soube que você virou uma senhora. É feliz. Mãe de família. Para mim, você continua sendo a menininha de Maria Farinha. Eu sou prisioneiro daquele verão !
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 11h53
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REUNIÃO
Saudação: - Bom dia a Todos e a Todas. Dinâmica de grupos: Todos e todas dão as mãos e dançam no centro da sala. Apresentação: Todos e todas se apresentam, dizendo o seu nome e o que fazem.
Divisão em grupos: Todos e todas se dividem em grupos para discutir o tema da reunião. Coffee Break: Todos e todas comem e tomam café. Apresentação das opiniões dos grupos: Todos e todas discutem as opiniões dos grupos ao longo do resto do dia. Conclusão: Todos e todas concluem que tudo é relativo e depende do ponto de vista de cada um. (Um salgado do coffee break causa uma disenteria em alguém que corre imediatamente ao banheiro.) Fim da reunião.
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 11h57
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DAQUILO QUE EU SEI
Um homem entra numa farmácia, compra alguns produtos e sai. Chega em casa, envenena a mulher, as filhas e depois se mata. Eu vejo alguém andando na multidão. Quem eu vejo ? Alguém que anda e vai para onde ? Fazer o que ? Por que ? O que eu vejo é muito pouco da verdade que me cerca. E o que me dizem e eu escuto nem sempre compreendo. Eu nem mesmo compreendo tudo o que sinto. O que faço para compreender o mundo e a vida ? Sou um menino que acorda no meio da noite, no quarto escuro, tateando em busca da porta, de alguma réstia de luz. Só a poesia me salva. As palavras escondidas nas palavras: o seu significado profundo.
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 15h27
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RECADO

Eu já fui um cigano sem caravana. Já vendi tomates no mercado e esmeraldas na Europa. Vendi areia. Dei aulas de inglês. Escrevi para colunas de pequenos jornais para ganhar dinheiro. Pouco dinheiro. Eu dormi em rodoviárias e sobrevivi a oito cargas de explosões numa mina subterrânea. Eu sei o que é a fome. E conheço a solidão. Conheço-a muito bem. Eu já fui tradutor do médico de uma rainha, e cozinhei durante muitos anos num fogão à lenha. Cozinhei feijão com charque. E arroz. De todas as coisas o que eu fiz nestes 49 anos de vida, a mais difícil foi ser agricultor. Mas foi também a mais bela! Dentre as poucas coisas que lamento, foi nunca ter visto você nua.
Escrito por Luis Manoel Siqueira às 14h54
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